segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Photographia(S)

"Há uma nudez própria no que se veste. Ocultante nudez. Ou o dizermo-nos duas vezes; o haver um 'por último', instância primeira. O sermos contáveis. Uns (a)diante dos outros. O que dizemos e calamos nas duas faces da moeda de troca do trato da vida: ocultando-nos proferindo, revelando-nos omitindo. E vimos a terreiro na busca da relevância: o que nos faz? Com que matérias se fazem os dias? Para quem somos e de quem somos? Se me disseres sol dir-te-ei a pele; se me disseres vento, dir-te-ei estribo no galope; se me me disseres tu, dir-te-ei para ti." 

Filipe M. 



sábado, 22 de fevereiro de 2014

Photographia(S)

"O darmos-nos à morte para que se viva. Que venha então o banquete. Que por uma vez se abatam sobre a rês todas as bocas famintas. Devorar na vez de amar; chacinar o que não sabem (nem saberão) construir. Que impantes exibam a presa nas suas bocas. Do que ficar, farei consecutivas manhãs. Sucessivos resgates, sucessivos lugares. Que se faça inteiramente noite e que todas as sombras saiam do redil da luz imerecida e se abocanhem inclementes e que no delírio da festa ardam como fogo-fátuo. Do que ficar lobrigarei outras manhãs, outros lugares. Sem detença o façam. Façam-no por fazer, façam-no agora, façam-no por fim, façam-no até ao fim, alheios a quaisquer razões porque não as há; nunca as houve. Por vezes, sabes, era apenas isso que pedia - não um sortilégio - apenas o lugar frondoso da banalidade. O abrir-se a planície como um campo pacificador. E o olhar estender-se sem culpa por sobre todas as coisas. O não haver nomes. Sabes, por vezes, represam coisas que pela sua natureza própria são de fluir: pois não pede o rio o seu mar e os lábios e as mãos e os olhos seus pares. Pois bem, aguardarei que a saciedade faça seu caminho, aquele que entorpece e adormece e sairei. E mesmo que se ergam relevos verei planícies e mesmo que se reergam relevos e ardis divisarei planícies e se à espada responderem parede tomá-la-ei com as próprias mãos e morrerei para que viva. Há-de haver um lugar. E desse lugar verei nascer o dia. Um dia que se estenda, assim como a toalha que cobre a mesa, na planura e sem fome nem sede nem amargura tomar-te-ei em mim." Filipe



domingo, 16 de fevereiro de 2014

Não te quero mais de David Antunes & The Midnight Band feat. Vanessa Silva, já é uma verdadeiro sucesso de vendas no iTunes

Photographia(S)

Às vezes consegue-se. A suspensão de tudo. Um abrandamento da máquina e tudo em nós num mínimo básico - funções vitais. Não há corpo, nem tempo. Torpor. Uma sensação tépida, uterinamente cálida. Imerso, quase na totalidade, com os olhos fitos exactamente na linha de água; e estou ali. Num silêncio aquoso, numa profunda paz. Gosto daquele azul que tinge a água do pigmento da luz. É um regresso, em sensação, a um estar inicial. E olho aquele corpo transfigurado, ondulado, impreciso, não meu, e percebo-o saciado. Quieto; finalmente quieto! Dessa fome de existir que se impõe por vezes demais. Ali, naqueles instantes frágeis, tudo é difuso: o ontem sem mágoas e futuro em branco. Até o som parece um pássaro esvoaçante de inquietação quando acontece entrarem ao engano num lugar só humano. E fecho os olhos e lentamente reabro-os e lentamente os fecho uma e outra vez e sinto paz. Ocorre-me algo que um velho me ensinou: Somos nós o mar; é em nós que ele habita. Assim é: Sou água dentro de água. Talvez seja isso a (minha) paz; quando dou a minha água à água e esta se dá a mim. E penso uma outra vez nesse sábio, já velho, que me disse: Religião é religar; é unir, por vontade, o que é diverso e assim é suposto ser. E dos vitrais daquela cúpula de vidro faço a minha própria igreja e acolho a luz como o abraço que me falta. Estou em paz. Mergulho e já posso ir ter comigo." 

Filipe M. 



sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Photographia(S)

"Não os supus assim; aos dias. Nos lugares que te reclamam há mesas e cadeiras que ciciam palavras crepusculares. E um sobre outro, dias sucessivos subtraindo os de antanho. Não virás. Sei-o hoje e (talvez) sempre. Talvez por isso te espere!" Filipe M.



quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Photographia(S)

"Na tua visita insone há janelas que se fecham ao vento e só depois, tão depois, sei que de lado a lado de cima a baixo há traços a lâmina desenhados do ir e vir das tuas mãos obliterando o meu corpo para que não mais o mesmo. Talvez um outro, outonalmente cansado, que não este: o desse exultante verão como se dissesse branco como se dissesse braços sugerindo céus." 

Filipe M.




Photographia(S)

LA LLUVIA

"Bruscamente la tarde se ha aclarado / Porque ya cae la lluvia minuciosa. / Cae o cayó. La lluvia es una cosa / Que sin duda sucede en el pasado. /

Quien la oye caer ha recobrado

El tiempo en que la suerte venturosa / Le reveló una flor llamada rosa / Y el curioso color del colorado. /

Esta lluvia que ciega los cristales

Alegrará en perdidos arrabales

Las negras uvas de una parra en cierto /

Patio que ya no existe. La mojada

Tarde me trae la voz, la voz deseada, / De mi padre que vuelve y que no ha muerto."

Jorge Luís Borges 



terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Photographia(S)

"A um tempo o tempo desfez-se; e todas as horas por minutos; 

E das portas não mais os segredos;

E das janelas a procura do vento;

Se houve um tempo primordial esse guarda-o a memória, que reconstrói destruindo.

Lembrar é mentir - é um  lugar no lugar daquele Outro. 

Tudo intacto, no seu preto e branco, na so(m)bra do que ficou da luz."

Filipe M. 



Photographia(S)

"Ninguém viu a beleza das ruas
até que, pavoroso, num clamor,
se precipitou o céu esverdeado
num abatimento de água e de sombra.
A tempestade foi unânime
e malquisto aos olhares foi o mundo,
mas quando um arco abençoou
a tarde com as cores do seu perdão
e um cheiro a terra molhada
animou os jardins, pusemo-nos a andar por entre as ruas como por uma herdade recuperada, e nos cristais houve generosidades de sol e nas folhas luzentes disse a sua trémula imortalidade o verão." • Jorge Luís Borges



Uma das magníficas recriações de FF: Feeling Good

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Photographia(S)

"Nunca o Amor será pretérito mais que perfeito. É ele, creio, quando olhos bons abraçam o nosso lado mau e o trazem para a luz boa que nos aceita inteiros e falhos, como é suposto. Se há porventura sol nos céus será cópia desenhada daquele que expedimos quando nos perdoamos, quando nos damos, quando amamos, quando sonhamos a arte do possível, quando nos sujamos de vida e dizemos que a mácula é a mais Bela das palavras. Sem de nada me arrepender, arrependo-me às vezes de não me ter percebido, de não te ter entendido, de não vos ter ouvido. E no entanto, desdigo tudo isto! Caramba: Estou vivo e feliz, talvez por tudo isso. De assim ser em vós e, melhor ainda, quando vocês são em mim: Braços que dão mãos, mãos que dão flor, flor  que se abre e dá em Amor". 

Obrigado e dia feliz <3

Filipe M.



Photographia(S)

"Acendam os sóis; acendam as velas dos barcos de todos os rios e todas as lâmpadas que tem o sonhar; acendam os dias e suas noites pares; acendam as cores e os olhares; acendam os corpos com os lábios das mãos; acendam o amor em camas de mar; acendam a alegria porque nos faz rir de tanto rir; acendam-se para quem por bem vier; acendam-se ao que está por vir; acendam os mortos que nos vivem; acendam os vivos porque nos adiam a morte; acendam as flores porque calam a dor; acendam todas as palavras inaugurais; acendam os poemas e os seus infinitos céus; acendam as lágrimas e o espanto por tudo o que há de Maior em nós; acendam gestos redentores; acendam o prazer porque foi prenda de Deus; acendam paz que é caminho e não lugar; acendam a Vida! 

Hoje é apenas o fim dum ontem; amanhã é apenas o fim dum hoje; depois de todos os amanhãs é apenas um princípio de eternidade..." Filipe M